domingo, 10 de outubro de 2010

Os Judeus no Império Otomano

O Império Otomano abrigou muitos judeus que fugiam da perseguição religiosa. Eles eram acolhidos pelas regiões e
países pertencentes ao Império



Teto da Sinagoga Zulfaris, atualmente o Museu Judeu da Turquia.
Datada de 1671, foi transformada em setembro de 2001 em museu.

Durante o fim do século XIV e início do século XV, à medida que os Otomanos avançavam em direção a Istambul, judeus expulsos da Hungria, da França e da Sicília se refugiaram em seus domínios. A eles se juntaram também judeus que fugiram de Thessaloniki (Salônica), então sob domínio veneziano.

Em 1470, judeus expulsos da Bavária estabeleceram-se na Turquia. Em 1492, Cristóvão Colombo zarpava do porto de Palos, um porto não tão importante quanto os de Cadiz e Sevilha. A utilização destes dois últimos, no entanto, era impossível, visto que eles estavam cheios de judeus expulsos da Espanha pelos reis católicos.

A expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, e a Conversão Forçada de 1497, em Portugal, produziram a "Diáspora Sefaradita", levando judeus a buscar refúgio em terras como as do Norte da África e as do extenso Império Otomano.

Muitos, ansiosamente, aceitaram o oferecimento feito pelo Sultão Bayezid II para se integrarem à vida do Império Otomano. Bayezid II fez questão de favorecer a entrada de judeus e ordenou aos seus governantes para acolhê-los cordialmente.

No século XVI, os judeus expulsos da Bohêmia chegaram ao Império Turco-Otomano. Judeus expulsos de Apulia, na Itália, que caíram sob domínio do Papa foram resgatados pelo Sultão Suleiman, o Magnífico, que escreveu uma carta ao Papa, exigindo sua liberação. O Papa cedeu, visto que o Império Turco Otomano era uma grande potência da época.

Os judeus eram protegidos pelo estatuto da Dhmmis (aplicado a não-muçulmanos que pertencessem aos povos do livro – judeus e cristãos), que os relegava a cidadãos de segunda classe, mas garantia sua vida, direito de propriedade e direito de culto.

Os judeus encontraram seu espaço em certas profissões que os muçulmanos não tinham interesse em fazer – eles preferiam se dedicar às atividades militares, políticas e religiosas - e nas quais os cristãos dos territórios recém conquistados não eram tidos como confiáveis. Trazendo sua experiência mercante e algumas inovações, como a prensa tipográfica, constituíram a classe média do país.

No Mediterrâneo, os judeus ibéricos posicionaram-se em núcleos urbanos, compondo formidável rede familiar de relações sócio-econômicas, que tornou válida a idéia do Mediterrâneo como o "Mar Sefaradita" ou o "Mare Nostrum Sephardicum", expresso por alguns historiadores.

Expressando sua opinião sobre a expulsão da Espanha, Bayezid II havia declarado na ocasião: "O rei espanhol Ferdinando é erroneamente considerado um sábio, pois com a expulsão dos judeus, empobreceu o seu país e enriqueceu o nosso".

Era evidente que os otomanos sabiam dos benefícios potenciais da emigração em massa. Aceitavam os judeus parcialmente por interesses econômicos. Os judeus da Espanha eram altamente qualificados, educados e grandes homens de negócios.

Bayezid II e seus sucessores, a partir do século XV, acolheram os sefaraditas no domínio otomano e valeram-se de seus préstimos e conhecimentos não só para a expansão e desenvolvimento do comércio regional e internacional, mas também para o incremento das finanças, diplomacia, negócios bancários, corretagem e ourivesaria.

Os refugiados de origem ibérica foram designados pelos dirigentes otomanos a importantes cargos político-administrativos, participando, inclusive, da estratégia de colonização de diversas áreas do vasto Império. Os positivos contatos mantidos entre sefaraditas e otomanos permitiram que laços de identidade se solidificassem com o tempo, em convivência de mútuo e duradouro respeito. O sistema político-administrativo otomano permitiu às minorias a preservação da religião, do idioma, das tradições e costumes.

A imprensa escrita, trazida para Istambul em 1493, por dois irmãos refugiados da Espanha é um exemplo da sofisticação que os judeus introduziram no Império Otomano.

Muitos consideravam que o Império Otomano lhes proporcionava o portão de entrada para a Terra de Israel. Ainda assim os judeus rapidamente se adaptaram ao renovado sentimento de liberdade e continuaram a se desenvolver culturalmente, financeiramente e espiritualmente.

Citamos como exemplo um dos documentos mais sagrados que apareceu no império, (com a ajuda da imprensa escrita) o Shulchan Aruch de Rabbi Joseph Caro. Publicado em 1564, continha o código de leis sefaraditas.

A literatura judaica revigorou-se. Um importante centro cabalista se firmou em Tzfat. Foram escritas obras como o Shulchan Aruch e a canção Lechá Dodí.

Os judeus foram proeminentes na medicina da corte (A Sublime Porta, nome poético da corte otomana), na diplomacia e como conselheiros e ministros da corte.

Com o tempo, a população judaica no Império Otomano chegou a 200.000 habitantes, contra apenas 65.000 na Europa. Eles se assentaram principalmente nas cidades de Istambul, Sarajevo, Salônica, Adrianople, Nicopolis, Jerusalém, Safed, Damasco, Cairo, Bursa, Tokat, Amasya e, mais tarde, em Smyrna. A população judaica em Salônica cresceu tanto que os judeus tornaram-se maioria na cidade. Esta cidade se tornou o centro da vida judaica sefaradí. Suas indústrias e o dinamismo de seu porto (desativado aos sábados), transformaram a cidade de Salônica, numa cidade-líder da rota comercial da indústria têxtil do século XIX.

A maioria dos sefaraditas vivia em Istambul, Salônica e Esmirna, perto dos dirigentes otomanos, seus protetores.

Istambul, centro administrativo e comercial do Império Otomano, passagem marítima do Mar Negro e do Mediterrâneo, constituía uma verdadeira praça de câmbios, onde produtos do velho e do novo mundo eram comercializados. Foi nesta cidade que a maior comunidade judaica se organizou. Em 1900 a comunidade de Istambul contava aproximadamente 300.000 judeus.

A decadência otomana e a ingerência do imperialismo europeu em terras do Oriente Médio levaram famílias de negociantes sefaraditas, procedentes de Istambul, Esmirna, Ilha de Rodes, Egito e de outras comunidades a buscar estabelecer-se em terras da Europa Ocidental, em diáspora à que chamamos de "Retorno ao Ocidente".

Fontes: Revista Morasha / Rio Total / Yeshuasar Shalom / Wikipédia / Chazit.com


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